Monday, April 25, 2005

Os Dedos

Os dedos povoam a terra
conhecem cada voz verde e livre
no espaço entre uma bala e um abraço
perduram como os sulcos da falésia

Na janela do rosto onde as palavras
não servem para amar
os dedos descobrem a forma
mais pura do silêncio.

E levantam sempre o corpo
que na terra negra de absurdo
se eclipsa por entre o metal

Friday, February 18, 2005

Pequeno texto

Porque continuamos a separar, a abrir o abismo que se debruça entre nós? Sempre com as mãos postas no silêncio, olhamos para a diferença com os lábios cheios de balas. Rejeitamos as formas que não se encaixam nos nossos dedos, e não fazemos o mínimo esforço para moldar o que poderia ser moldado com o simples auxílio de um sopro. Sempre perdidos em nós, abrimos as brechas do mundo, erguemos os punhos em direcção às nuvens que cantam com uma voz diferente da nossa, asfixiamos os desenhos que o vento faz. Deixamos sempre que o ódio seja "a palavra", mesmo quando parece que não se pode dizer mais nada. Seria tão fácil esquecer a lógica das letras, para nos lembrarmos da irracionalidade da música. Não é preciso falar, quando os braços esmagam um grito. A pergunta primordial é: iremos alguma vez mudar? Talvez quando soubermos quebrar o peito contra todos os rostos, esta pergunta possa ser respondida.

Sunday, February 13, 2005

Sem Título

Na rua
sob as letras tépidas
imaginas como seriam os rostos
se a esfera parasse

Sonhas com a luz
em todas as pálbebras

Wednesday, February 02, 2005

Semi-Surreal 3

O incesto das palavras murmuradas
quando a noite rasga a lua
provoca dentro do ventre a criança
concebida pelos pequenos grãos
de loucura

Acordas para o lençol estendido sobre a fronte
tocas-me com os dedos ternos
da vontade

Abraço-te enquanto os joelhos
se transformam em amor

Surreal 2

O olho azul não está contido
dentro do peito que agora almeja a vontade
de ser outra coisa muito mais azul

Talvez se o mar não estivesse
dentro das pupilas encerradas
o corpo se levantasse e corresse pelo areal rubro
como se os pés fossem pequenas asas
feitas de crude alvo

Sempre que a guitarra toca
inventando a melodia da ternura
a pele feita de cortiça não cospe
o que o fogo outrora dizia

Podes não acreditar naquilo que escrevo
nas palavras dançantes na folha crua
mas eu continuarei a cuspir punhais

Nunca cessará em mim
o que faz as costas moverem-se para dentro
do areal

Tuesday, February 01, 2005

Surreal

As aves voam nos seus caminhos desertos
dentro de uma voz acesa como as muralhas
e penso que o fim da vida nao é a vaga
que se encerra sobre si mesma

Tendo a garganta desfolhada aberto
os seus jardins de palha
voas, voas, voas como se as andorinhas
vivessem nos seios que se abrem no mundo
e também dentro de ti

Dizes que conheces a voz e que não é a tua
dizes que sempre viveste dentro das palavras
como uma concha fechada sem pérolas
mas não dizes nada para além disto
fico sempre sem saber o que és

Por favor, vem dançando nas nuvens
lentas do oriente e esquece a tua propria memoria
so assim poderas cantar a musica
que os cegos não veem

Poema escrito em: 1m e 23s


Monday, January 31, 2005

Asfixia

O espaço não está preenchido
sinto a asfixia de tactear as lágrimas da luz

A areia das palavras que quero dizer
rasga a pupila em sal inconsequente
se ao menos o destino fosse a guitarra
onde os acordes de zéfiro brando
lentamente harmonizam a estrada

Volto a ver-te e sussurras-me ao ouvido
"mesmo se o sonho estivesse aqui
não terias dedos para o tocar"



Tuesday, January 11, 2005

Murmúrio

Quem murmuria ao vento
Palavras que combatem a lua
Não deveria saber falar